Americo Santos

 "Porque viajar é preciso..." 

 

A viagem a Creta apesar dos muitos quilómetros sempre a considerei como a mais fácil dos
Equipamento e bagagem usados na viagem
3 extremos Europeus a conquistar. Foi das viagens que maior prazer me deu, mas também a mais stressante. Viajar “amarrado” a reservas é completamente o oposto à minha filosofia de viajar de moto.
Como de costume o Cabo da Roca foi o local de partida, as hostilidades abrir-se-iam no dia seguinte com uma tirada de mais de setecentos Kms.



1º DIA – 17AGO (745 Kms)


Local de partida
Os dois principais factores que condicionam uma viagem podendo mesmo levar à não realização ou insucesso da mesma, prendem-se com o estado da moto ou condição física dos ocupantes. Devido às características únicas deste tipo de veículo em que os ocupantes estão expostos aos elementos atmosféricos é de capital importância que estejam bem de saúde quando iniciarem a viagem. Aconteceu aquilo que mais temia, dois dias antes da partida adoeci. Apresentava sintomas de fadiga e sobretudo suores frios que apareciam e desapareciam, mas a minha temperatura era perfeitamente normal. Esta situação estava a deixar-me com os nervos em franja, estávamos a poucas horas do início da viagem, já havíamos gasto 800€ e ainda não havíamos percorrido 1 Km. Adiar a partida seria o mais aconselhável, mas com horários de ferries a cumprir, tornava-se impreterível que saíssemos no dia e à hora planeada. Escusado será dizer que nessa mesma noite pouco dormimos devido ao estado em que me encontrava. Tínhamos deixado a moto preparada na noite anterior para assim evitar atrasos já que tínhamos muitos Kms pela frente. Amanheceu com uma temperatura a rondar os 20ºC e com uma leve brisa fresca, não estava calor, longe disso. Continuava a não me sentir melhor por isso era continuar com a medicação e controlar-me para não preocupar ainda mais a Sónia. Antes de sairmos alterámos os relógios para a hora espanhola.

Despedida do Pai da Sónia
O pai da Sónia o Sr. Isaac, havia-nos pedido que quando partíssemos passássemos pelo café que este queria despedir-se de nós. No dia anterior dissemos-lhe que iríamos sair muito cedo, logo às 07h00 por isso o café deveria estar fechado. Mas não, este já havia falado com o Sr. Hernâni o dono do café e afiançou-nos que estariam abertos à nossa espera. Ainda me lembro da sua cara quando nos viu chegar, equipados e de moto carregada sabendo que o nosso destino estava a milhares de kms. Que aventura! Não parava de dizer. Américo cuida bem da minha filha, deixo-a ir porque sei que tens muita experiência e milhares de kms de moto por essa Europa. Foi quando o Sr. Hernâni nos perguntou se queríamos um café, não resisti, já a Sónia torcia o nariz. Ela odeia café, mas é importante que o tome pois tem tendência a adormecer o que é perigoso sobretudo numa moto. Despedimo-nos do pai da Sónia, vi nos seus olhos um misto de orgulho e receio pelo que a sua filha se preparava para fazer. Quando nos preparávamos para arrancar, este não resistiu e levou o indicador à testa, dizendo que estávamos doidos. A viagem havia começado!

Tomámos o caminho em direcção a Alverca, com o objectivo de apanhar a A1 para maior rapidez e segurança. A moto encontrava-se bastante pesada e cada vez que tínhamos de parar num semáforo ou passadeira de peões era nessa altura que o peso mais se evidenciava.
Quando delineei a viagem, foi no sentido que se evitasse o maior número de portagens tornando-a assim o mais económica possível. O trajecto recomendado pelo Via Michelin era entrar na A1 em Alverca, sair em Abrantes apanhar a A23 até Castelo Branco passando pelo Fundão, Guarda e finalmente a A25 (IP5) que nos levaria até à fronteira.
No dia anterior não havia atestado completamente o depósito da FJR e como tinha 330Kms em território Português, resolvi não arriscar atestando apenas 5€ perto da Covilhã. Assim era certo que tínhamos o bastante para chegar a Fuentes de Oñoro e ai atestar a um preço mais acessível. As temperaturas até Castelo Branco, foram sempre na ordem dos 22/23ºC mas a partir dai e até Vilar Formoso sempre a subirem até aos 31ºC.

Depois de cruzar a fronteira era hora de fazermos a tirada que mais me desagrada. É verdade que o asfalto tem boas condições e estrada larga, mas pejada de inúmeros camiões e com uma paisagem deveras desinteressante. Não fossem umas quantas estátuas de vacas coloridas na berma da estrada a provocarem-nos o sorriso e seria uma monotonia. Por esta altura já ansiávamos por parar para almoçar aproveitando para esticar as pernas.
Até Tordesilhas a minha situação não se havia alterado, os suores frios continuavam. Não tinha temperatura nem expectoração o que de alguma maneira me deixava mais tranquilo. A experiência diz-me que não devemos viajar de moto quando nos encontramos doentes. Os motociclistas que o fazem não sabem o risco que correm já que uma simples constipação pode evoluir rapidamente para uma pneumonia. Esta era uma viagem feita toda ela em Agosto com temperaturas altas a tendência seria melhorar e não o contrário. Contudo sabia que tinha 2 dias críticos pela frente. O primeiro com a adaptação do corpo às condições de viagem e o segundo com as baixas temperaturas nocturnas e matinais que caracterizam a zona de Burgos e junto à fronteira. Tantas foram as vezes que cruzei esta estrada, que estava bem ciente daquilo que me esperava. Tinha fé que rapidamente ambos começássemos a apreciar a viagem como merecíamos.

Almoçámos e predispusemo-nos a fazer as centenas kms que faltavam até Burgos. Apesar da contrariedade a nossa moral continuava em alta e ao longo do dia entretivemo-nos a brincar um com o outro em cima da moto. Passava pouco das 19h00 quando chegámos, fruto de um pequeno engano do nosso GPS que nos levou a atrasar. Nos kms finais, este resolveu que seria interessante irmos assistir ao trabalho das ceifeiras no campo. No ar uma nuvem de palha esvoaçava e a poucos metros do destino, nem de propósito, uma das ceifeiras junto à estrada atirou com quilos de palha por cima de nós. Confesso que por 1 ou 2 segundos deixei de ver a estrada. Lembro-me apenas da Sónia a rir-se à gargalhada. Foi com a roupa coberta de palha que nos apresentámos na recepção para tratar da nossa estadia.

Estávamos um pouco cansados, era natural já que se tratava apenas do primeiro dia, decidimos por isso ir para a cama mais cedo. Jantámos e de seguida ligámo-nos à net, havíamos prometido a todos quantos nos acompanhavam, que diariamente iríamos dar informações e colocar fotos relativas à viagem.
Apesar do cansaço adormecer não foi fácil, eram 23h30 e ainda havia tagarelas a falar e a rir muito alto. Resolvemos colocar os tampões nos ouvidos que usamos em viagem e foi remédio santo.
A Sónia adormeceu rápido, eu nem por isso já que continuava com os suores frios. Como não sentia qualquer melhoria, nessa noite resolvi mudar de medicação. Como estaria no dia seguinte…

2º DIA – 18AGO (805 Kms)

Tal como previra a noite em Burgos fora bastante fria com os termómetros a acusarem apenas +11ºC às 06h30.

A minha principal preocupação era o meu estado de saúde. Durante a noite havia dado conta que tinha deixado de suar. Ao fim de 3 dias finalmente começava a sentir-me melhor. Ambos sabíamos o que isto significava, nessa manhã sentimos Creta ficar bem mais perto. Não sei se fora a nova medicação o que sei é que as nuvens negras que pairavam sobre a viagem estavam agora a dissipar-se.
Hoje iríamos fazer a maior etapa de toda a viagem, era por isso um dia importante para nós mas sobretudo para a Sónia, pois o máximo que havia percorrido num só dia fora 560 Kms. Preparava-se por isso para bater o seu próprio record pessoal. Nisto de bater recordes não se escolhem dias ou condições favoráveis, adaptamo-nos às dificuldades do momento e superamo-las. Contudo não iria ser fácil já que os primeiros 200 kms até à fronteira iriam ser percorridos com temperaturas baixas e nevoeiro.
Demoramos na arrumação da bagagem, era a primeira vez que trabalhávamos como equipa nesta viagem, a ausência de rotina tornava-nos extremamente lentos. O Bar encontrava-se ainda fechado, como tal não fora possível tomar o pequeno-almoço.
De estômago vazio e com frio a nossa motivação era mínima ou nenhuma em iniciar viagem nestas condições. Com isto acabámos por sair apenas às 07h45.
Liguei o motor e de imediato accionei o elevador do vidro colocando-o na sua posição mais alta para uma maior protecção do vento e do frio. Por estar nevoeiro e também por estarmos com equipamento de Verão, optei por uma velocidade reduzida.
A eficaz protecção do vidro da FJR aliada aos punhos aquecidos, seriam o suficiente para aguentar as primeiras horas da manhã. Conforto em viagem exige-se e os punhos aquecidos são uma das peças fundamentais nesse capítulo. Que bem que sabia o calor emanado nas palmas das minhas mãos. A Sónia optou por se manter bem junta às minhas costas, de tal forma que por mais que me mexesse ela não descolava.
O meu blusão de Verão era novo, manda a ponderação que numa viagem longa deveremos optar por vestuário com provas dadas o que não era o caso. Mesmo com centenas de milhares de quilómetros de moto, por vezes cometemos erros de principiante.
Já o blusão da Sónia era um 4 estações, que aliado às protecções rígidas colocadas nas pernas contribuíam bastante para amenizar o efeito do frio. Ainda assim era notório que ela não estava de todo confortável. O frio era tal que ignorei a placa a indicar a autoestrada. Era difícil circular a 90 Km/h, se aumentasse a velocidade estaria a piorar ainda mais a nossa situação. Ficámos assim pela N-I e com isto poupámos uns euros para o pequeno-almoço.
Acabámos por entrar na autoestrada só em Donastia e poucos Kms depois parámos numa bomba Repsol. Depois da FJR abastecida finalmente o pequeno-almoço. A Sónia torcia o nariz ao café, mas desta vez com razão. O café que nos serviram era absolutamente intragável, valeu-nos os croissants e a simpatia de quem nos atendeu.
O nevoeiro e o frio mantinham-se, decidi por isso num reforço de roupa para ambos. Apesar de não chover as calças impermeáveis iriam dar-nos a protecção extra que as nossas pernas exigiam. A diferença foi notória logo após os primeiros Kms, sentíamo-nos agora bem mais confortáveis apesar das condições adversas.
O nevoeiro acabou por se dissipar já perto da fronteira, por esta altura a temperatura era ligeiramente mais alta chegando aos +17ºC. Assim que vimos a placa “France”, parámos e não hesitámos em fazer uma sessão fotográfica ali mesmo.

Tomada a A64 em direcção a Toulouse, tínhamos agora um limite de velocidade de 130Km/h. Era o prazer de devorar Kms mas também a monotonia das autoestradas.
Antes de iniciar a viagem havia comprado um pneu novo para trás e decidido manter o da frente. Face aos quilómetros e desgaste que este apresentava julgava-o capaz de fazer a totalidade da viagem. Ao decidir pela sua não substituição teria no entanto de fazer uma gestão do desgaste do pneu. O peso, as temperaturas do asfalto e sobretudo a velocidade eram factores determinantes no sucesso dos meus intentos.
Até Montpellier, o nosso destino, o trânsito esteve sempre bastante intenso com constantes abrandamentos que nos obrigavam a circular por entre os carros a baixa velocidade.

Cada vez que nos aproximávamos de uma portagem, era um verdadeiro calvário. Tínhamos que esperar por vezes 10min até podermos efectuar o pagamento. Durante este período, estávamos completamente vulneráveis aos gases de dezenas de automóveis e a uma temperatura de +35ºC. Sentia o ar quente que saia do motor queimar-me as pernas.

Quanto mais perto de Montpellier, maiores os problemas de trânsito com as constantes portagens a agravar ainda mais esta situação. Nos últimos kms, não nos restou alternativa senão rolar pela berma da autoestrada já que as 3 vias se encontravam imobilizadas.
No final, embora exaustos estávamos felizes com a nossa prestação. Havíamos percorrido 805 Kms num só dia, com nevoeiro, muito transito e com temperaturas dos +11ºC aos +35ºC. A autoestrada havia no entanto provocado marcas bem visíveis no pneu da frente...

3º DIA – 19AGO (522 Kms)


Manhã estranhamente fria para a região e para a altura do ano, mesmo assim nada que se comparasse à vivida no último dia em Espanha.
As etapas maiores haviam ficado para trás o sentimento reinante era que tudo seria mais fácil doravante.

O plano para hoje seria entrar em Itália não sem antes explorarmos Cannes e o Principado do Mónaco. Apesar de ser uma etapa com menos quilómetros, ainda assim era conveniente sairmos cedo para assim aproveitarmos o tempo disponível.

Estávamos novamente na autoestrada, desta vez em direcção a Marselha. Os engarrafamentos do dia anterior estavam ainda bem presentes na nossa memória fazendo-nos temer que estes se repetissem. Felizmente isso não veio a acontecer já que o trânsito fluía sem qualquer tipo de problema.
Estávamos focados em encontrar a estação de serviço com o preço mais baixo e os placards informativos não deixavam margem para dúvidas que o Carrefour seria o eleito. Reabastecida a moto era tempo de tomar o nosso pequeno-almoço.
Os primeiros kms da manhã são sempre os mais fáceis especialmente depois de uma noite bem dormida que nos enche de energia.
Cannes

Após 270Kms havíamos chegado a Cannes, onde os mais de 30ºC convidavam a banhos de sol e mar. Da avenida à beira mar podia-se vislumbrar uma praia sobre lotada de banhistas. Felizmente os nossos planos não incluíam fazer praia, se fizessem teria sido deveras difícil descortinar um espaço no areal.

Para a moto não tivemos qualquer dificuldade em encontrar espaço para estacionar o pior mesmo era o imenso calor que se fazia sentir. Passeámos por Cannes mas ao fim de algum tempo desistimos de o fazer. Tornara-se cansativo o facto de termos que andar com bagagem e blusões para onde quer que fossemos. Assim concluímos a reportagem fotográfica e decidimos ir almoçar no Mónaco. Antes não o tivéssemos feito!

Mónaco
Depois de uma avalanche de portagens, eis-nos chegados ao principado. Uma fila imensa e compacta de veículos fez com demorássemos uma eternidade até Monte Carlo. Parecia Lisboa em hora de ponta com a diferença na qualidade do parque automóvel, Ferraris, Lamborghinis, Maserattis, Bentleys, Bugatti, etc… Enfim, veículos de alta performance e de muitas centenas de milhares de euros que passam a sua vida no eterno congestionamento do trânsito Monegasco. Perante filas de trânsito paradas a tendência natural de quem anda de moto é ultrapassar. Aqui não é de todo aconselhável já que a Policia é implacável para com os infractores.
Finalmente chegados a Monte Carlo dirigimo-nos para o parque de estacionamento mas este tinha a indicação de esgotado. Perguntamos a um polícia mas este ainda assim disse-nos para entrar. No interior reparámos que motos e scooters entravam e saiam sem qualquer controlo. As cancelas por serem curtas deixavam espaço mais que suficiente para se poder passar. O objectivo passava por deixar na moto o máximo de bagagem possível. Apesar de ser uma tarefa relativamente simples a quantidade de gases e o calor existentes no interior da garagem dificultavam-nos a acção. Aquilo que queríamos era sair dali o mais rápido possível e o pouco tempo que demorámos foi o bastante para ensopar por completo a T’shirt que usava.

Monte Carlo
Era a estreia da Sónia no Mónaco, eu já aqui havia estado por outras ocasiões. Gosto da vista sobre a marina, não gosto do ambiente de ostentação e futilidade que caracterizam o principado.
Almoçámos e demos um passeio tirando algumas fotos aos locais mais importantes. Quando nos sentimos bem as horas parecem segundos e sem darmos conta estava na altura de partir novamente.
Tínhamos pela frente 200 Kms até Génova onde iríamos passar a noite em casa de uns amigos.
A entrada em Itália despertou-nos de imediato para a dura realidade do que é viajar num país com gasolina a quase 2€ o litro. Um verdadeiro exagero se comparado com 1,44€ que abastecíamos em Espanha. A poucos Kms de Génova, fomos presenteados com uma chuva ligeira, um pronuncio daquilo que nos esperava.
O nosso GPS apesar de algo “mandrião”, ainda assim não falhou e deixou-nos mesmo à porta de casa da Camila e do Francesco. A Sónia desmontou, tocou à campainha e segundos depois avistámos a Camila. Transportada a bagagem e acomodados no magnífico apartamento, foi com deslumbramento que da janela vimos a magnifica vista sobre a cidade de Génova.
Génova
Conheço Itália de norte a sul mas nunca havia aqui estado. Génova foi para mim uma agradável surpresa, pena não termos podido explora-la devidamente com os nossos amigos.
O serão foi deveras animado, os nossos anfitriões haviam-nos preparado uma ceia farta e suculenta tipicamente Genovesa. O prato principal era Pesto, bem regado com um tinto Italiano mas a estrela da noite fora o Focaccio.

O Focaccio que pode ser feito de diversas maneiras, com azeitonas ou cebola, sendo esta última a minha favorita. Na mesa havia ainda uma grande variedade de queijos que fizeram as delícias dos apreciadores em especial da Sónia. Já a aguardente do Francesco confesso que foi do melhor que já bebi. Potente no entanto suave nada parecida com a que coloco no meu café em Portugal. Fora uma noite memorável onde a Camila e o Francesco nos demonstraram a “arte de bem receber”. Recolhemos ao quarto perto da meia-noite, apesar de cansados a aguardente dava-me mais vontade de cantar “o sole mio” do que propriamente dormir. A previsão meteorológica para o dia seguinte era de chuva, logo no dia em que não nos podíamos atrasar para o ferry…

4º DIA – 20AGO (990 Kms)

Hoje é dia de apanhar o primeiro dos vários ferries da viagem. A nossa opção recaiu no porto de Ancona por considerar ser esta a escolha mais lógica. Se tivermos em conta que as principais cidades Italianas encontram-se a norte de Roma, não faz sentido deslocarmo-nos a Bari ou Brindisi se tivermos como único objectivo apanhar o ferry para a Grécia. Seria uma perda de tempo e dinheiro!
Este foi um daqueles dias que ficará gravado na nossa memória e começou logo a partir do momento em que nos deitámos.
Cerca da 01h00 da manhã a Sónia já dormia e eu começava a cair no sono. De repente o gato saltou para cima das minhas pernas, dei um salto, acendi as luzes e lá estava o bichano ao fundo da cama. Primeiro o espanto, depois o riso, mas logo nos controlámos não querendo acordar o Francesco que iria levantar-se às 04h00.
Passados uns 30 minutos e refeito do susto o cansaço e o sono tomavam conta de mim quando comecei a ouvir o alarme da moto. Mau! Mas o que é que foi agora? Fui à janela, chovia copiosamente, relâmpagos e vento forte.
As rajadas eram tão fortes que a moto abanava mesmo no descanso central fazendo soar o alarme. Disse à Sónia que tinha que tirar a moto do local sob risco de esta poder cair com o vento.
Sair de uma cama quente directamente para a chuva e para o frio era horrível mas pior seria se de manhã chegasse à rua e visse a moto no chão. Por isso vesti rapidamente as calças impermeáveis e o blusão com o intuito de traze-la para junto da entrada onde ficaria abrigada. Depois de estacionada queria voltar rapidamente para a cama para ver se dormia alguma coisa.
Chegado ao quarto, foi ao despir-me que reparei que tinha as costas e o peito molhados. O blusão era novo tinha vindo do Canadá o que me atraíra nele fora a quantidade de bolsos muito úteis para quem viaja de moto. Ainda incrédulo, fui ver a etiqueta, dizia Made in China, pronto está tudo dito.
Ainda no dia anterior tinha visto a meteorologia e davam previsão de chuva para Bologna. Não podia acreditar, chuva pela frente e eu com um blusão que não me protegia da chuva. Demorei a adormecer só pensando no raio do blusão dos xeneses.
Toca o despertador, eram 06h30 e a sensação que tinha era que havia acabado de fechar os olhos há segundos. Água fria na cara e um cafezito iriam pôr-me como novo.
Não havia tempo a perder tínhamos que nos despachar pois o Ferry ainda estava longe e não esperava por nós. A partida do ferry estava marcada para as 16h00 mas exigiam que estivéssemos 2 horas antes para Check-In. Se conseguíssemos sair às 07h00 teríamos duas horas para gerir o que seria mais que suficiente.
A simpática da Camila quis levantar-se para se despedir de nós, tomámos o pequeno-almoço e aproveitámos para lhe pedir emprestado um impermeável do marido. Rapidamente colocou em cima da mesa uma série de impermeáveis à nossa disposição. Foi uma querida! Não queríamos saber do design ou da cor o que importava era que me protegesse da chuva.
Com a conversa e com os beijinhos quando olhei para o relógio a folga de duas horas resumia-se agora a apenas uma. Na teoria até pode parecer fácil distribuir uma hora pelas diversas pausas ao longo dos 550 Kms, na prática não é bem assim, há sempre os imponderáveis.
Bagagem arrumada e malas montadas na FJR era tempo de nos fazermos à autoestrada o quanto antes. O dia amanheceu lindo ninguém diria que há poucas horas tinha passado por Génova uma verdadeira tempestade. O céu estava azul e não havia o mais pequeno indício que fosse chover, trouxera o blusão do Francesco e o mais certo era nem usa-lo.
A opção da autoestrada fazia todo o sentido, principalmente para quem como nós estava refém de horários. Tinha pensado reabastecer fora da autoestrada, já que o preço da gasolina compensava o desvio. No entanto a escassez de tempo inviabilizava qualquer ideia que nos fizesse atrasar ainda mais.
O troço de Génova a Piacenza é bastante interessante ao nível da condução com curvas para todos os gostos. Não podíamos no entanto abusar das inclinações em curva já que o asfalto se apresentava húmido e a moto bastante pesada. Se o fizéssemos além de corrermos riscos estaríamos também a contribuir para o desgaste prematuro do pneu da frente, que por esta altura já não estava nas melhores condições.
Bolonha aproximava-se rapidamente e com ela o receio que a chuva nos atrasasse irremediavelmente.
Até agora as paragens tinham-se remetido apenas a reabastecimentos. O objectivo era manter o máximo de tempo de reserva disponível até bem próximo de Ancona.

Ao longe, nuvens ameaçadoras faziam-nos temer o pior quando ainda faltavam mais de 100Kms até ao destino. Parei na primeira oportunidade por forma a vestirmos as calças impermeáveis e o blusão do Francesco por cima do meu.
Nem 5 Kms depois caíram os primeiros pingos e passados alguns minutos chovia torrencialmente. Tinha dificuldade em ver os carros que circulavam à nossa frente. A falta de visibilidade fez com que o trânsito abrandasse significativamente. Por esta altura alguns automobilistas haviam decidido que não havia condições para continuar, acabando por imobilizar os seus veículos na berma da autoestrada. Não podia acreditar no que estava a acontecer…
Numa viagem realizada à minha maneira (sem reservas), era altura para dar por terminado o dia procurando um local para passar a noite. Nesta viagem infelizmente isso não era opção, já que se não apanhássemos o ferry em Ancona perderíamos também o próximo para Creta.
Podia-se contar pelos dedos os veículos que ainda circulavam a maioria estava encostada à berma e a visibilidade era praticamente nula.

Apesar da chuva via-me obrigado a viajar com a viseira entreaberta para permitir a entrada de ar de maneira a não embaciar. Na viagem que havia feito ao Cabo Norte em 2008 havia-me preparado para a chuva. Tinha levado inclusive um líquido anti embaciador para aplicar na viseira que fazia maravilhas. Nunca me passou pela cabeça que numa viagem em pleno Agosto para a Grécia fossemos surpreendidos por um autêntico dilúvio.
Comecei por sentir os braços molhados e pouco depois o tronco, para minha surpresa o blusão emprestado também não era impermeável. Foi quando parei para saber da Sónia que vi realmente o quanto molhado estava. Não sentia uma única parte do corpo seca. A minha preocupação no entanto ia para com o telemóvel e máquina fotográfica que tinha guardado nos bolsos e que agora estavam molhados.
Mudar de roupa não fazia sentido, continuava a chover e não tinha impermeáveis que protegessem a roupa seca. A única opção era continuar até Ancona no estado em que me encontrava. Felizmente que a Sónia estava seca, exceptuando alguma água que entrara pelo capacete e os pés que se encontravam totalmente encharcados. O seu blusão Bering manteve-a sempre seca, enquanto eu com um blusão Spidi H2out em casa estava ali ensopado com um dos chineses.
Este foi um dos pontos mais baixos da nossa viagem, chovia torrencialmente, fazia frio e tínhamos ainda tantos kms pela frente. Neste momento tínhamos a consciência que estávamos a correr sérios riscos, teimando em continuar a fazer Kms em condições tão perigosas.
A deslocação do ar à medida que os kms passavam, arrefecia cada vez mais e mais o meu corpo molhado. Era como se o vento gelado tocasse directamente na minha pele.
Estava rapidamente a perder temperatura corporal o frio desconcentrava-me na condução e isso não poderia acontecer. Tinha que fazer algo, foi quando me lembrei de ligar os punhos aquecidos o que acabou por surtir algum efeito. As luvas eram de Verão estavam totalmente encharcadas mas com o calor emanado dos punhos era como se tivesse as mãos mergulhadas em água quente.
Apenas a uma dezena de Kms de Ancona finalmente deixámos de ser fustigados pela chuva. Como ainda tínhamos 15 min, resolvemos ir ao Lidl para ai trocar de roupa e aproveitar para fazer umas compras para a viagem. A Sónia foi a primeira enquanto eu fiquei junto à moto onde aproveitei para verificar os estragos que a chuva havia feito.
Espalhei pelo chão a roupa molhada para que secasse e tratei de abrir o saco de depósito para ver se tinha entrado água. Quando reparei que no seu interior os vouchers dos Ferries estavam ilegíveis comecei a praguejar…
As folhas haviam-se colado misturando números e letras umas nas outras tornando-se difícil decifrar os códigos das reservas. Aqueles vouchers representavam quase 800€ em Ferries e estavam agora ilegíveis. Descolei folha a folha e coloquei-as no chão para que secassem o que acabou por resultar.
Depois de também ter mudado de roupa era altura de nos pormos a caminho do porto de embarque e quanto aos vouchers seja o que Deus quiser.

A nossa indumentária não deixou ninguém indiferente à nossa chegada ao check-in. Viajávamos de moto mas quem nos visse mais parecia que íamos para a discoteca com a Sónia inclusive de saltos altos. Na altura não houve tempo para escolher a roupa, agarrámos na primeira que vimos que por acaso destinava-se à noite de Creta.
Chegados ao guichet do Check-in, confesso que senti uma certa vergonha quando apresentei um papel desfeito e desbotado, dizendo que tínhamos tido um problema com a chuva. A resposta da senhora foi pronta, não preciso ver o papel basta olhar para as vossas caras para ver que apanharam chuva. Risada geral!
Ela lá conseguiu decifrar o código de reserva e como o voucher do dia seguinte estava nas mesmas condições deu-nos também os restantes bilhetes. Agora despachem-se que já começaram a embarcar, dizia ela.
Foi uma simpatia, despedimo-nos e montados na moto fazíamos por seguir as indicações das placas que nos levaram até ao Superfast XI da companhia de ferries Anek.
Junto à rampa de embarque os bilhetes foram mostrados a um elemento da tripulação e entrámos no seu interior. O lugar que estava reservado às motos situava-se no 1º andar. O navio era de facto enorme!
No interior do Ferry. A roupa molhada em cima da moto

Estacionámos a moto junto a outras, trancámos os capacetes a cadeado, deixámos na moto a roupa molhada e tudo o resto que não pretendíamos levar conosco.
Subimos por um elevador directamente para o bar/esplanada onde havia uma piscina, para assim podermos assistir à partida do nosso ferry.

Constatámos que a grande maioria dos passageiros que ali se encontravam eram jovens, falavam uns com os outros aos berros e alguns deles já se encontravam alcoolizados mesmo antes do navio sair para o mar.
Aproveitámos para comer o que havíamos trazido do Lidl, falámos sobretudo da chuvada horrível e de tudo o que nos aconteceu desde as primeiras horas.

Para mim continuava a parecer irreal o facto de conseguirmos estar ali depois de termos superado todas as provações por que passámos num só dia.
Sentia-me orgulhoso com a Sónia e havia um sentimento mútuo de missão cumprida.

5º DIA – 21AGO (869 Kms)

Depois de 20 horas fechados num ferry era grande a expectativa de colocarmos novamente os pés em terra e logo num país que para ambos era estreia absoluta. A primeira coisa que fizemos mal acordámos foi alterar o relógio para a hora grega (+2horas).

Para quem nunca viajou no Superfast XI da Anek saiba que é um navio de 200 mts de comprimento com uma capacidade para 1.639 passageiros e 653 veículos. Bares, restaurantes, discoteca, casino, salão de jogos, piscina, parque infantil, enfim todas as condições que estamos habituados a ver num cruzeiro.
Ao embarcar no Superfast XI não estranhem que os tripulantes metam conversa convosco. É perfeitamente natural e garanto-lhes que não lhes vão pedir dinheiro ou algo em troca, estão apenas a comportar-se como gregos. Super-simpáticos e predispostos a ajudarem no que for preciso.

Eram 07h00 quando o ferry fez uma escala inopinada no porto de Corfu onde desembarcaram na sua maioria jovens. Enquanto tomávamos o pequeno-almoço foi bastante notória a sua ausência a bordo, principalmente pelo regresso da paz e do prazer que um cruzeiro pode proporcionar sem a presença de jovens alcoolizados e desordeiros a bordo. Às 09h00 o ferry iria atracar em Igoumenitsa seria a última paragem antes do nosso destino. A saída pouco lesta por parte de alguns passageiros foi deveras irritante. Estivemos imenso tempo ali atracados à espera que abandonassem o navio para podermos seguir viagem. Este egocentrismo por parte de alguns passageiros comprometeu irremediavelmente a possibilidade de chegarmos a horas ao porto de Patras.

Enquanto almoçávamos brincávamos com o facto de há quase um dia não vermos a nossa moto. Parecia que havíamo-nos portado mal e como castigo tinham-nos tirado a moto.
Finalmente ecoou aos altifalantes do navio o aviso que o ferry iria atracar em Patras. O nosso coração disparou e rapidamente nos deslocámos à garagem para nos prepararmos para o desembarque.
Lá estava a nossa menina num hangar enorme e praticamente deserto.

Descemos a rampa que dava acesso ao piso inferior e rapidamente estávamos no cais. Imediatamente um calor abrasador entrou pela viseira dos nossos capacetes apanhando-nos completamente desprevenidos. O sol parecia ter garras e o termómetro da nossa moto não parava de subir. Não havíamos saído ainda do porto e já começávamos a ter uma pequena amostra do que iria ser viajar na Grécia durante o mês de Agosto.

Estavam +39ºC e tínhamos pela frente cerca de 209 Kms até Atenas. O nosso GPS havia endoidecido, obrigando-nos a guiar pelas placas existentes. Vim a descobrir mais tarde que a sua desorientação, prendia-se com o facto de a estrada ser recente não constando por isso no mapa instalado do GPS.
Optámos pela autoestrada até Atenas, já que as informações que tínhamos sobre as estradas secundárias na Grécia não eram as melhores.
O custo das portagens era de 4€, muitíssimo mais barato se comparado com o que pagámos em França ou Itália mas a qualidade deixava muito a desejar. O asfalto parecia uma manta de retalhos com obras que nos restringiam a velocidades de 50 ou 60 Km/h. Já ficávamos satisfeitos cada vez que vislumbrávamos um sinal de proibição de 80 Km/h e mais satisfeitos ainda com esporádicos 110 Km/h, isto numa autoestrada.
Quando analisamos um mapa ficamos com uma ideia que por vezes não se coaduna com o que depois vemos no terreno. Dai a extrema importância do trabalho de pesquisa no planeamento de uma viagem. Só desta forma conseguimos ficar com uma visão mais clara daquilo que nos espera.
A decisão de reservarmos o ferry para Creta para o dia seguinte, teve como base o depoimento de viajantes que haviam feito este troço uns meses antes. Mais vale prevenir que remediar!
Não estávamos a perder um dia de viagem, pelo contrário, estávamos a poucas centenas de quilómetros de uma cidade mundialmente famosa que para nós era uma estreia.

Iríamos aproveitar ao máximo para explorar Atenas deixando para o regresso o restante que faltasse ver.
Conduzir na Grécia, no início, foi um pouco estranho mas depressa nos habituámos, já que os Gregos conduzem na berma da estrada. Qualquer faixa de rodagem com 2 vias é transformada em 4 mesmo com traço contínuo. Mas não se assustem as bermas são suficientemente largas e limpas para nelas conduzirmos em segurança. O transito flui e as ultrapassagens processam-se com a maior das facilidades.
Durante o percurso, devido ao muito calor, rolávamos de blusões e viseiras dos capacetes abertos. Sempre que parávamos bebíamos bastante água para não corrermos o risco de desidratarmos.
A temperatura do asfalto por esta altura devia de andar na ordem dos +50ºC, demasiado alta para a durabilidade dos pneus.
Quase a chegarmos a Atenas passou a haver um controle intenso de radares. Os tradicionais radares fixos e Policias empunhando “pistolas de radar”. Nada que não tivéssemos à espera, sendo sempre informado atempadamente pelo Gps do radar que se segue.
Quando entrámos em Atenas a ideia formada que tinha da cidade não se traduzia com aquilo que via. Em alguns aspectos até muito parecida com algumas cidades Marroquinas de ruas sujas e com muita poluição. Atenas estava sendo uma verdadeira desilusão a única coisa que me deixava feliz era saber que este não era o nosso destino final.
Já passavam das 19h00 tínhamos de descarregar rapidamente a moto, se queríamos ainda visitar a Acrópole que distava a apenas 9 km do local onde nos encontrávamos.
Se já achava Atenas uma confusão a praça Monastiraki era o expoente máximo dessa mesma confusão. Chegados ai estacionámos a moto e quando colocávamos o cadeado em U para guardar os nossos capacetes, fomos interpelados por um casal. Disseram-nos para não deixarmos ali a moto correndo o risco que se o fizéssemos seriamos autuados. Não víamos o porquê, não havia placas que o impedissem. Estão na Grécia meus amigos a Policia aqui faz o que quer, apontando para o papel de multa na moto ao lado. Agradecemos-lhes!
Antes de abandonarmos o local ainda nos confidenciaram que um dos seus sonhos era conhecer Espanha e Portugal na sua moto. Esperamos vivamente que o vosso sonho se concretize, dissemos-lhes.
Com isto perdemos tempo a procurar um novo local para estacionar a moto. Finalmente e ao fim de uns 10min um estacionamento destinado a motos.
A pé e sempre a subir foi assim que tentámos a nossa sorte. Eram 20h05 quando chegámos à Acrópole esta havia encerrado ao público à apenas cinco minutos. Passadas tantas horas e ainda sofríamos as consequências dos comportamentos egocêntricos que resultaram no atraso do ferry.

Estava desolado, não só o caminho havia sido em vão como poderíamos ter perdido a única oportunidade de visitar a Acrópole durante a viagem. Não adiantava chorar sobre o leite derramado a solução era aproveitar o pouco tempo de luz disponível e visitarmos o máximo que conseguíssemos até ao final do dia.

O rochedo que se erguia junto ao templo estava repleto de turistas que para além da vista privilegiada sobre a cidade, eram também brindados por um magnífico por do sol. Devido à quantidade de gente que acede ao local a rocha está polida o que a torna muito escorregadia. Um passo em falso e cai-se de uma altura de centenas de metros para uma morte certa. O local tem tanto de bonito, quanto de perigoso.

Regressámos à moto junto a esta havia um bar tipicamente grego onde recuperámos as forças e saciamos a sede com umas cervejas geladas FIX. Os aperitivos que nos serviram eram muito bons mas a verdade é que ainda nos provocavam mais sede. De seguida demos um passeio pelas lojas típicas de Atenas, muito coloridas e repletas de um cem número de odores.
O dia estava no fim, antes de regressarmos não quisemos deixar passar a oportunidade de visitar o Parlamento Grego e assistir ao famoso render da guarda.

6º DIA – 22AGO (361 Kms)

O facto de termos na nossa posse os bilhetes do ferry e a distância ao porto de Piraeus ser de apenas 12 Kms, permitia-nos acordar um pouco mais tarde do que vinha sendo habitual.

A partida do ferry estava marcada apenas para as 10h e a companhia de ferries Anek era a mesma que nos havia transportado de Itália para a Grécia. Positivamente influenciados pelo ferry anterior estávamos bastante curiosos para saber como seria o próximo.
De acordo com a informação contida nos bilhetes do ferry este encontrava-se atracado na entrada E2.
Ainda não tínhamos visto o cais de embarque e já eram visíveis placards indicando as várias entradas. Começava do número maior para o mais pequeno por isso não havia que enganar, depois da E3 surgia a… E1. E1? Mas será que passámos pela E2 e nem a vimos? Estávamos os dois bastante intrigados, principalmente porque as entradas eram tão grandes que era impossível não a termos visto. Como nos restava a E1, optámos por entrar e procurar o navio dentro do próprio porto.
No caminho já havia visto um ferry da Anek e até tinha feito sinal à Sónia, mas ao aproximarmo-nos constatámos que a entrada não correspondia à dos bilhetes.
O porto é enorme com diversos ferries das várias companhias. Teríamos que descobrir o ferry da Anek mas com um cais repleto de camiões a tarefa não se adivinhava fácil. Serpenteávamos por entre estes e chegámos inclusive a rolar em contra mão. Por fim uma placa indicava E2 para a esquerda, quando me preparava para seguir, reparo numa outra escrita à mão que indicava para a direita. Mau! Estão a gozar conosco? Tirámos à sorte e segundos depois avistámos o ferry.

Dirigimo-nos à popa do navio onde um membro da tripulação orientava a entrada dos veículos. Explicámos que queríamos ir para Chania mas que não havíamos encontrado a entrada E2. Este pediu-nos os bilhetes e depois de os devolver disse-nos num perfeito inglês Welcome Aboard (Bem vindos a bordo) enquanto fazia sinal para avançarmos. Ainda incrédulo, olhei para trás e na entrada lia-se E3…
Assim que subimos a rampa as diferenças para o ferry anterior eram mais que evidentes, menor, mais antigo e também mais degradado. O local de estacionamento das motos continuava a não mudar, 1º andar à proa e a bombordo.

Como ainda não tínhamos tomado o pequeno-almoço dirigimo-nos ao bar junto à recepção. Ice coffee, Donuts e uma garrafa de água que nos foi servido com enorme simpatia. A conversa com a empregada fluía de tal forma que esta acabou por se esquecer de colocar os donuts na conta. Não tínhamos dado por isso, apenas achámos estranho ser tão barato. Como havíamos pago em dinheiro, nem nos demos ao trabalho de conferir o recibo. Mais tarde esta disse-nos que se havia esquecido dos donuts, mas que não tínhamos que pagar porque o erro havia sido dela. Nada disso, dissemos nós, pagamos já!
Era altura de procurar uns lugares bem confortáveis para a viagem, afinal de contas sempre seriam 9 horas até Creta.
Ovelhas ronhosas há em todo o lado e aqui não é excepção. Perguntámos a uma senhora se os lugares estavam ocupados, já que havia uma série de pequenos objectos espalhados por todos os sofás em redor de uma mesa. Notei nela alguma indecisão mas acabou por permitir que nos sentássemos. Passados alguns minutos chegou o marido, um sexagenário, que ao constatar a nossa presença ralhou com a mulher. Este tinha para si um sofá de 3 lugares mesmo assim não chegavam, queria também todos os outros em redor da mesa.

Não sei como a maioria das pessoas reage perante comportamentos destes, mas quando se passa comigo é quando faço pior. Direi apenas que saimos dali quando este deixou de resmungar.
A última parte da viagem foi toda ela feita na esplanada à popa do navio observando o mar e os pequenos ilhéus que por vezes se avistavam.

Foi quando a Sónia já dormia que soou o aviso ao altifalante, estávamos prestes a atracar no porto de Souda.
Souda? Esse nome não me diz nada. Como tinha o GPS liguei-o e vi que Souda estava a escassos 6 Kms de Chania. Havíamos chegado!
Dirigimo-nos ao hangar para aí aguardarmos pelo desembarque. Ali chegados uma desagradável surpresa, tinham amarrado as motos umas às outras com um único cabo que passava por todas elas. Caso uma tivesse caído, teria arrastado todas as outras consigo. Não sei se se tratou de incompetência ou negligência ou se as duas juntas.
Depois do desembarque o destino era Mithimna a escassos 5 Kms de Kissamos. Teríamos ainda de percorrer 39 Kms para darmos o dia por encerrado.
Mithimna "sunset"

Chegámos! Houve quem duvidasse é certo, mas isso é para quem não conhece os nativos dos signos Touro e Carneiro, “failure is not na option” (falhar não é opção).
Após o pôr-do-sol um jantar a dois, bem romântico para comemorarmos a nossa chegada.
Em Kissamos numa esplanada com uma temperatura de 30ºC, saboreámos a tão famigerada comida grega acompanhada com cervejas FIX que por esta altura se haviam tornado nossas amigas inseparáveis. Para terminar o repasto e como oferta da casa, melancia bem fresquinha e o famoso Raky. Pagámos apenas 14€!

De barrigas inchadas de tanto comer, foi com alguma dificuldade que subimos para cima da moto. Aliás lembro-me bem de gozarmos um com o outro devido a essa situação.
Para os que auguravam ver-nos chegar a Portugal muito magrinhos, depois deste jantar, éramos nós que começávamos a preocupar-nos com o aumento de peso em Creta.
As férias haviam começado, tínhamos 5 dias de praia pela nossa frente sem termos que nos preocupar com horários ou quilómetros. Era o início da Vida Loca

7º/10ºDia – 23 a 26AGO (520 Kms)

Quando comecei o meu planeamento para esta viagem. Cedo deu para perceber da importância das ilhas gregas e o peso que estas têm no turismo mundial. A palavra ilhas é repetida um sem-número de vezes em cada texto, em cada comentário. O apelo às ilhas é mais que evidente chegando ao extremo de ter lido se “vai para a Grécia fuja para as ilhas”. Um pouco exagerado digamos, mas achei graça e ainda hoje me lembro.

Depois da estadia em Creta a opinião que tenho formada é que nunca tive turismo de qualidade no continente como aquele que nos foi oferecido aqui. A magia que nos faz apaixonar por Creta, reside nas paisagens ainda selvagens, no azul-turquesa do mar, na temperatura elevada das águas, na simpatia das pessoas, no ritmo de vida que aqui abranda significativamente.
Creta é a maior ilha grega e a segunda maior do mar Mediterrâneo Oriental. O interior da ilha é bastante acidentado com estradas em más condições. A melhor estrada percorre a costa norte ao longo de 300 Kms ligando a ilha de ponta a ponta entre Kissamos e Siteía.
Creta é reconhecida mundialmente como um dos melhores destinos de férias. Existem inúmeras praias fabulosas sendo a sua maior concentração a Oeste da ilha com a famosa Gramvousa (Γραμβούσα) mais conhecida pela Lagoa de Balos, Elafonisi (Ελαφονήσι) e Falassarna (Φαλάσαρνα).

A localização destas praias foi a principal razão por termos optado por ficar em Mythimna.
Não foi fácil chegar à praia de Elafonisi (Ελαφονήσι) situada no Sudoeste da Ilha a 76 Kms de Chania (Χανιά). O GPS resolveu atalhar pelo interior e poucos kms depois deparámo-nos com uma estrada de terra batida em péssimas condições. Foi a primeira vez em toda a viagem que tive que perguntar a alguém qual a direção a tomar e quando o fiz a resposta veio em grego. Por gestos expliquei que preferíamos uma estrada asfaltada e não em terra. Vi que tinha compreendido mas para mal dos nossos pecados continuava a falar em grego. Foi então que resolvi ignorar aquela ladainha e prestar atenção para onde apontava. Continuámos a perguntar às pessoas e a resposta vinha invariavelmente em grego. Teríamos no entanto que continuar a faze-lo até recuperarmos novamente a confiança no nosso Gps.
A estrada asfaltada de relativo bom piso é estreita e cheia de curvas, mas a beleza da paisagem é deslumbrante.
Chegados à praia de Elafonisi (Ελαφονήσι) o azul-turquesa do mar em contraste com a areia branca deixaram-nos extasiados com a sua beleza e com uma vontade irresistível de entrar naquelas águas.
Estacionar a moto não acarretou qualquer problema já que o parque de estacionamento é enorme.

Elafonisi
Em frente à lagoa, onde se concentram a maioria dos banhistas, há chapéus-de-sol, chuveiros, casas de banho e vestiários. Nesta zona a profundidade da lagoa é cerca de 1 metro o que é óptimo para crianças e nos permite uma travessia a pé até à ilha situada em frente.
Foi uma tarde extremamente bem passada a maior parte do tempo na ilha.
Já a praia de Falassarna (Φαλάσαρνα) a escassos 20 Kms de Mythimna não ofereceu qualquer dificuldade em lá chegar.
Falassarna

Falassarna é uma das mais conhecidas praias de Creta, que pela sua beleza, proximidade de Chania e fácil acesso, atrai muitos turistas principalmente no Verão. A praia é avistada desde o cimo de um morro, do qual se pode observar uma quantidade enorme de estufas e um mar de perder de vista.

A praia é de areia fina e branca e a água quente e cristalina. Já ganhou diversos prémios pela sua beleza e é constantemente eleita como uma das 10 melhores praias da Europa. O único inconveniente é estar exposta aos ventos o que origina grandes ondas atraindo por isso praticantes de windsurf.
Já tínhamos explorado 2 das 3 praias de referência, era tempo de explorar outros pontos GPS que tinha no nosso Roadbook.
Através do Google Map sabia da existência de um lago perdido no interior da ilha.

Lago Kournas
O Lago Kournas é o único lago de água doce em toda a ilha, situado num vale entre as montanhas a cerca de 4Kms de Georgioupolis. O lago é relativamente pequeno e pouco profundo sendo que a sua maior profundidade é num determinado local onde ultrapassa os 20mts.
O lago Kournas é ideal para um passeio ou mesmo passar uma tarde já que a paisagem é linda e sobretudo relaxante. No lago há possibilidade de alugar uma “gaivota” ou Kayak por 7€/hora. No lago existem patos que se aproximam dos turistas em busca de alimentos, bem como tartarugas, garças e até peixes de aquário.

Lago Kournas
Achei estranha a presença destes peixes, vindo a saber à posteriori que alguém resolveu ali introduzir sem pensar nas consequências. Junto ao lago temos a oportunidade de almoçar enquanto apreciamos a bela vista num dos diversos restaurantes que por aqui existem. Estes restaurantes oferecem na sua maioria pratos tradicionais de Creta a preços acessíveis.
No mesmo dia que visitámos o Lago Kournas, não quisemos perder a oportunidade de visitar a praia de Georgoupolis a apenas 7Km. Esta praia havia sido referenciada durante a travessia de Ferry de Itália para a Grécia por um simpático membro da tripulação do Superfast XI.
A praia é de facto enorme e ficámos a saber que é um destino turístico muito popular. O cenário é indescritível e uma vez mais a temperatura e o azul-turquesa destas águas convida-nos a entrar e não mais sair.

A nossa moto prende as atenções, não foi por isso de estranhar que um jovem Moldavo que trabalhava no bar da praia, nos confidenciasse que juntava dinheiro para comprar uma moto. O plano era fazer uma viagem à Noruega para visitar uma rapariga que havia estado de férias naquela praia. Disse-lhe que era demasiado novo (17 anos) que com aquela idade ainda por cima na Noruega o mais provável era apaixonar-se por várias raparigas num só dia.

Stavros
Stavros foi uma das praias que mereceu a nossa atenção. Localizada 17 Kms a nordeste de Chania a sua imagem de marca é o monte bastante íngreme com uma caverna no alto.
A famosa dança de Anthony Quinn no filme “Zorba” realizado em 1964, foi filmada aqui em Stavros.
Existem duas praias sendo que a principal fica no sopé do monte ao lado do pitoresco porto. A baía é circular de areia branca e água azul, bem protegida dos constantes ventos que sopram na região.

Lagoa de Balos
Aqueles que dizem que o paraíso não existe, nunca visitaram Balos (Γραμβούσα). É um daqueles locais divinos que ficam gravados na nossa memória para sempre.
A mundialmente famosa lagoa de Balos está localizada a 56Kms de Chania e apenas a 17Kms de Kissamos. É a praia que encabeça os guias turísticos da Grécia para convencer os turistas a visitar o seu país. Não foi por acaso que o Príncipe Charles e a Princesa Diana visitaram Balos no seu iate privado.
Balos é famosa pelas belas paisagens exóticas, as suas águas azul-turquesa, pouca profundas e excepcionalmente quentes. Já visitei diversas praias espalhadas pelos diversos continentes e afianço-lhes que nenhuma se compara em termos de temperatura da água. O meu relógio de mergulho reportava uns incríveis +35ºC num determinado local da lagoa. Não é por isso de estranhar a aparente letargia que toma conta da maioria dos banhistas. Aliás eu e a Sónia rimos bastante com esse facto de cada vez que reparávamos na quantidade pessoas completamente estática com água até ao pescoço e de boné.
Lagoa de Balos

Podemos aceder a Balos de 3 formas, de ferry (a forma mais fácil), de 4X4/moto TT, ou a pé numa caminhada de algumas horas.
Para aqueles que pensam visitar Balos de carro, à entrada é-lhes cobrado 1€ por pessoa e depois preparem-se para uma estrada estreita, perigosa, empoeirada e em péssimas condições durante 10Kms. Depois de deixar o veículo no parque de estacionamento, está ainda a 2Kms da praia que serão percorridos a pé. Se na ida é sempre a descer o pior mesmo é a volta especialmente depois de um dia passado na praia. Esta subida é morosa e muito exigente no aspecto físico não sendo de todo aconselhável a quem tenha problemas cardíacos.
Como a nossa moto era de estrada, pedi se podia fazer um pequeno teste e cedo percebi que era escusado arriscar-nos, já que corríamos sérios riscos de partir o cárter do motor. A pouca distância ao solo e as enormes pedras enterradas, fizeram-me abdicar da ideia apenas alguns metros depois.
Foi o melhor que fizemos em termos de segurança para nós e para a moto. Estacionava a moto à sombra junto à entrada e já tínhamos boleia na traseira de uma Pick-up. Na volta também não tivemos qualquer problema porque a Sónia conseguiu boleia logo na primeira tentativa.

Chania também conhecida por Hania é a segunda maior cidade e a mais bonita de Creta. Muito por culpa do seu porto onde se concentram museus, igrejas e antigos edifícios que foram restaurados e são hoje Hotéis, Bares e Lojas. O artesanato é deveras interessante devido à sua genuinidade e os produtos locais ali expostos são muitas vezes para oferta. Aliás a oferta espreita em cada loja, já que os turistas são chamados a provar as suas especialidades entre elas o famoso Raki. Se nos descuidamos e deixamo-nos “ir na onda” o mais provável é apanharmos uma bebedeira de Raki sem que tenhamos pago um cêntimo.
O artesanato ali exposto, principalmente o da antiga Grécia, com olaria e objectos em bronze fazem qualquer cliente perder a cabeça.
Lembro-me numa loja a quantidade e a qualidade dos produtos expostos. O que mais nos ficou na memória foi uma réplica do capacete de guerra usado por Aquiles. A qualidade dos detalhes aliados ao preço baixo, fizeram-nos desejar, nunca pensei dizer isto, que estivéssemos de carro.

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